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 Capa do Livro em sua Primeira Edição

Capa do Livro em sua Primeira Edição

 
 

Primeiro livro em Português sobre Hilma af Klint apresenta trechos inéditos de seu testamento e lança luz sobre suas pesquisas espirituais

Autora Luciana Ventre fala dos desafios para escrever biografia sobre artista cujo legado entrou tardiamente para a História da Arte

No ano de 1944, guardados em um sótão nos arredores de Estocolmo (Suécia), encontravam-se catalogados 124 diários, mais de 1.200 pinturas e cerca de 26 mil páginas manuscritas e datilografadas. Tratava-se da obra até então desconhecida da pintora sueca Hilma af Klint, cuja vida está relatada pela primeira vez em Português no livro As Cores da Alma – A Vida de Hilma af Klint. Escrito pela terapeuta biográfica Luciana Ventre, o lançamento nacional do livro está previsto para Abril, com palestras de Luciana sobre sua biografada.

Foram dez anos de pesquisa para Luciana Ventre concluir As Cores da Alma – A Vida de Hilma af Klint. E muitos desafios. “Quase 98% do material que ela deixou, inclusive seus diários escritos à mão, estava em sueco. Levei quatro anos trabalhando com tradutores na Europa que verteram os conteúdos para o Português. Para contextualizá-los sobre o universo que traduziam, tive que ensinar um pouco de Antroposofia e fundamentos do movimento Rosa Cruz”, explica Luciana, uma vez que Hilma foi uma iniciada nas ciências espirituais.

Em 2016 Luciana Ventre foi recebida como pesquisadora pela Fundação Hilma af Klint, na Suécia. Entrevistou o curador e editor de arte da Fundação, Ulf Wagner. Também conheceu de perto os ambientes onde a artista viveu em Estocolmo e arredores, visitou sua exposição no museu Henie Onstad Kunstsenter em Oslo. 

 

Teve acesso aos diários de Hilma – que jamais versavam sobre si, mas acerca dos processos criativos das suas telas. Também à cartas inéditas para o público: a correspondência que a pintora manteve, a partir de 1908, com o filósofo, artista e esoterista Rudolf Steiner, fundador da Antroposofia e da Pedagogia Waldorf.   Todo este conteúdo está no livro e apontam inclusive na direção de desmentir o fato de que Stainer teria rejeitado o trabalho de Hilma. “Ele deu a ela autonomia para buscar os próprios caminhos, mas sem dizer como fazê-lo por acreditá-la capaz”, avalia a escritora. 

A partir da revelação do acervo desconhecido por vontade da própria artista - que julgava que suas obras não seriam compreendidas por pintar mundos invisíveis que vinham à tona a partir da atuação de seres superiores – Hilma passa a ser considerada precursora do Abstracionismo. O que pode significar uma mudança nos marcos da História da Arte, já que suas telas antecedem trabalhos não figurativos do pintor russo Wassily Kandinsky.

“Apesar de sua formação na Academia Real de Belas Artes, Hilma af Kint não integrava movimentos artísticos. Seu foco era a pesquisa espiritual. Via-se como uma transmissora de mensagens com uma missão. Fez escolhas como a castidade e a humildade para manter-se focada”, explica Luciana. Ela ressalta que apesar da relação com o universo mediúnico, Hilma estava longe de ser uma pessoa descolada da vida prática. “Ela sustentou-se como pintora de retratos e paisagens, cuidava da casa, da mãe doente e à noite dedicava-se à obra que seria seu legado. Aos 80 anos escreveu o próprio testamento”, conta Luciana. 

Em As Cores da Alma vem à tona a personalidade de Hilma sem reduzir a força de sua arte a uma ou outra esfera. O leitor poderá tomar conhecimento de sua infância, da sua aproximação com movimentos espiritualistas na virada do século, o contexto de viver em uma sociedade que atravessou duas guerras mundiais, revoluções na arte e na ciência.

“O livro traz uma riqueza de informações como a tradução do testamento de Hilma e trechos de seu diário. Imagens delicadas e inéditas dela quando criança. O  lançamento de As Cores da Alma – A Vida de Hilma af Klint vem no contexto da primeira exposição sobre ela no Brasil, na Pinacoteca de São Paulo, até julho deste ano. É uma oportunidade, setenta e cinco anos após sua morte, para o público brasileiro conhecer Hilma, cujo legado entrou tardiamente na história da arte” enfaliza Luciana Ventre.

Reverência

  “A lei pode nos dar a liberdade”, Goethe

Hilma af Klint era um nome totalmente desconhecido para mim. Sempre gostei  muito de arte, filosofia e poesia, temas sobre os quais desenvolvi meus estudos. No entanto, nunca havia me deparado com Hilma.

A trama da História, em seu lado visível, traz em sua urdidura  a versão daqueles a quem o tempo permitiu ter voz para narrá-la. Mas, o fio da História tem verso e reverso, e se por um lado alça-se sobre o tecido, por outro mergulha no obscuro esquecimento. Eis que aí encontramos os calados, ou aqueles que não tiveram porta-vozes, ou os que lutam por um lugar ao sol em paciente disciplina, simplesmente sendo coerentes com suas pesquisas e experiências, como obstinados desbravadores do novo.

Hilma foi uma dessas exploradoras. No entanto, ainda temos que ocupar-nos em deixá-la falar, sem sermos tentados a reduzi-la aos nossos próprios chavões, preconceitos ou bandeiras.

Deixe-a pesquisadora do sagrado oculto; deixe-a mulher da virada do século; deixe-a artista pluricromática e pluriformas; deixe-a cientista e abstracionista; antropósofa e empreendedora; pintora de paisagens e perscrutadora de fungos e musgos. Deixe-me também inventar um léxico para deixá-la em paz, artista resgatada, cartógrafa do invisível. Esta é a busca de Hilma e a busca de Luciana Ventre, que aceitou a aventura: narrá-la como vida, como obra, e fazê-la presente como inspiração nesses tempos mornos, doentes de normalidade.

Assim, por meio da escrita de Luciana, compomos a imagem de Hilma, sempre reverente com seus mestres. Mas, seria a obediência uma prisão? Apenas para aqueles que não passam da superfície por medo da profundidade do mar. A obediência que Hilma devotou aos seus guias libertou-a, deu-lhe as condições para fazer do invisível, visível aos olhos de todos. Deu-nos a chance de percorrer os territórios abstratos e forneceu um caminho de liberdade ao nosso olhar que, conduzido por ela - enfim tornada mestra das cores - leva-nos da Natureza à linha e à forma, como música; e da abstração, ao átomo; e finalmente, retorna ao musgo e à folha. Retorna, portanto, à Natureza, que, graças a Hilma, podemos agora intimamente conhecer.

Vimala Ananda Jay

19.03.2018