Hilma af Klint 

 Hilma af Klint na Royal Academy of Fine Arts - 1890

Hilma af Klint na Royal Academy of Fine Arts - 1890

 
 

Em 1906, uma mulher pintou a primeira imagem abstrata da história...

era  Hilma af Klint (1862-1944). Isso aconteceu anos antes dos modernistas da abstração Wassily Kandinsky , Kazimir Malevich, Frantisek Kupka e Piet Mondrian produzirem suas obras radicais e não figurativas na segunda década do século XXI. Suas pinturas surpreendem através da linguagem pictórica radical, escolha de cor e composição. Além disso, sua abordagem sistemática e sua pesquisa visual são impressionantes.

Em tempos impulsionados pelo ego, quando todos mostram suas realizações imediatamente, a decisão de Hilma af Klint de não mostrar suas obras abstratas poderosas e enigmáticas em público durante a vida pode parecer excêntrico, mas há muito mais fatos concretos que mistério nesta história.

De acordo com a vontade da artista, escrita em seu testamento para seu sobrinho e herdeiro de suas obras, Erik af klint, seus trabalhos não deveriam ser exibidos até pelo menos 20 anos após sua morte. Ela acreditava que seus contemporâneos não estavam prontos para entender o significado de suas imagens, e toda sua tentativa de mostrá-lo a grupos seletos e específicos foi recusada na época.

Levou 42 anos até que o professor de artes Ake Fant, da escola Waldorf de Jarna, despertou interesse e abriu os baús guardados nos porões da Sociedade antroposófica, nos arredores de Estocolmo.

Em seu acervo havia 1.200 pinturas, 100 textos e 26.000 páginas de registros e esboços detalhados em mais de 50 cadernos, guardados de forma metódica e enumerados no mesmo padrão de uma pesquisa científica séria.

Mesmo assim, foi somente 17 anos depois que uma pequena parte de sua enorme produção foi exibida em público pela primeira vez na lendária exposição The Spiritual in Art, organizada por Maurice Tuchman no Museu de Arte de Los Angeles, nos EUA, em 1986.

O trabalho da desconhecida artista sueca causou sensação e interesse mas, na época, a falta de informação sobre ela era uma questão relevante para quem não dominava a língua sueca e não vivia na Escandinávia.

Em maio de 2013, organizada pela Moderna Museet em Estocolmo, a exposição Pioneer of Abstraction reuniu pela primeira vez trabalhos de todas as fases da carreira da artista, desde a década de 1890 até a década de 1930, lançando nova luz sobre sua obra radical e complexa. Muitas das obras desta exposição nunca foram mostradas publicamente antes - de fato, nem mesmo foram descompactadas desde a morte da artista.

Antes de analisar as reações extremamente positivas do público de hoje ao trabalho de Hilma af Klint e a curiosidade sobre sua arte que a exposição despertou, devemos olhar mais de perto para entender melhor as condições em que ela produziu sua obra, a começar pela condição de gênero, como mulher na sociedade sueca do século XIX. Ela pertencia a uma família que teve recursos para introduzi-la na academia de artes de Estocolmo, privilégio de poucas mulheres de sua geração.

Entretanto artistas femininas - mesmo que fossem talentosas e tivessem a mesma educação que seus colegas do sexo masculino - não eram convidadas para as redes masculinas existentes. As mulheres pertenciam à esfera doméstica, como mães e esposas. A atividade artística para uma mulher não era vista como carreira, mas sim como um passatempo antes de se casar, não era algo a ser levado a sério.

Hilma não se casou, não seguiu o roteiro esperado para sua época, e quando se formou como artista, já trabalhava profissionalmente vendendo e exibindo suas paisagens e retratos de estilo naturalista com direito a descrição de sua profissão na lista telefônica ao lado do seu nome.

A mudança decisiva em seu trabalho aconteceu em meados de 1890, quando começou a representar o invisível. Pode parecer uma ruptura completa com seu estilo naturalista anterior, no entanto, o que de fato aconteceu foi uma evolução da artista e da pesquisadora destemida que estava disposta a embarcar de corpo e alma, em uma experiência completamente nova em todos os sentidos.

Hilma e o Mundo Espiritual

 Com seu passado cristão, Hilma af Klint era muito interessada no lado espiritual da vida. Em 1879 participava de sessões de espiritismo que estavam florescendo na época. As chamadas sessões eram muito populares, e eram onde os médiuns faziam contato com os mortos e transmitiam suas mensagens.

Em 1890, Hilma e quatro outras mulheres formaram um grupo que chamaram de The Five, e a partir de 1896, as integrantes do The Five começam a praticar a escrita e o desenho automático durante suas sessões semanais. Hilma af Klint abandona gradualmente as imagens naturalistas em um esforço consciente de se afastar de seu estilo acadêmico. Isso foi mais de duas décadas antes que os surrealistas experimentassem a escrita automática na arte abstrata.

Depois de passar dez anos aprendendo a perceber uma realidade além do visível como médium, suas obras começam a se revelar "através" dela. Assim como fez em seu processo figurativo anterior com a natureza, assim também ela se dedicou na pesquisa sistemática e analítica do mundo espiritual. Em sua busca constante pela ciência espiritual, participava de palestras de Annie Besant, líder da Theosophical Society onde conheceu Blavatsky e Rudolf Steiner.

Quando encontrou Steiner em 1908 teve a coragem de convida-lo para visitar seu estúdio e mostrar-lhe seu trabalho, até então guardado em segredo. Ao conhecer sua produção, Steiner não poupou palavras para dizer-lhe que seu trabalho estava além daquele tempo e da compreensão daquela época. Não foi fácil para ela digerir as críticas e considerações daquele líder espiritual que ela considerava influente e carismático e um dos únicos aos quais ela confiava que pudesse entender sua obra e ajudá-la a compreender com o que estava lidando.

Naquele tempo, Rudolf Steiner era chefe da Theosophical Society na Alemanha e pouco tempo depois fundou a Sociedade Antroposófica. Era o começo de uma nova iniciação, e Hilma mergulhou cada vez mais com seriedade em seus estudos em busca de orientação e conhecimento. Foram quatro anos de pausa sem uma única pintura mediúnica, Hilma fechou o atelier e dedicou-se à mãe cega voltando a aceitar encomendas de retratos para se sustentar. Durante este tempo de reflexão, parece ter digerido melhor sua missão e, quando voltou a pintar, continuou a pesquisar o micro e macrocosmos e, em cada fase, apareciam abordagens diferentes, possivelmente inspiradas pelas palestras de Rudolf Steiner que estudava intensamente. Ela atravessou momentos de dúvida e grandes questionamentos e, durante muitos anos registrou sua luta entre a obediência direta dos guias espirituais, e a evolução e amadurecimento de sua pintura a partir de uma elaboração consciente que emergia de sua alma.

 

Hilma af Klint hoje

Se uma árvore cai no meio da floresta e não há ninguém por perto para ouvir, teria realmente a árvore caído? Diferentes linhas do pensamento humano, da filosofia à comédia, já abordaram esta questão, gerando muito mais debates e conversas interessantes do que conclusões definitivas. Hilma af Klint é uma destas árvores extraordinárias, cujo eco ouvimos agora, mais de 70 anos após sua morte. A vida e obra de Hilma af Klint são permeadas por todos os temas mais candentes da sociedade atual: novas relações com o espiritual, ruptura de padrões estéticos e a produção feminina na arte mundial.

A história da arte, como em outras situações históricas culturais, foi sempre construída e reconhecida após os fatos, e o objetivo dos artistas nunca foi ilustrar a história da arte, mas desafiá-la ou enfrentá-la. Hilma af Klint entre outros desafios, revelou que precisamos ampliar nossas perspectivas, ter uma visão mais inclusiva de como a criatividade funciona e de onde as imagens podem vir. Devemos nos proteger de fontes desconhecidas de inspiração, ou abraçar uma perspectiva mais ampla de criação?

A partir de 2013 na exposição “Hilma af Klint: A Pioneer of Abstraction” em Estocolmo, sua obra começa de fato a ser revelada em uma exposição de grande abrangência. O público que passou por ali ficou emocionado, surpreso e fascinado. Tudo era enigmático, desde a época em que foram pintadas, ao tamanho das telas, as cores ousadas, as imagens abstratas e até a ausência de assinatura – pois Hilma raramente assinava sua obra. Os espectadores ficaram surpreendidos com suas próprias reações físicas e impressões que iam além da mente racional.

Ela era uma artista pioneira, que estava à frente de sua época e que teve a coragem de se abrir para uma compreensão mais ampla do mundo e da consciência humana. Hilma af Klint acreditava no poder da imagem simbólica, acreditava no mistério da vida, na dança harmônica das polaridades e na transcendência da matéria pelo espírito. Há cem anos, ela pintou para o futuro. Pois o futuro chegou, é agora. E agora nós somos convidados a ampliar nossas perspectivas.